Apenas sinta.
Ando acordando de madrugada. Eu sei, aos 47 anos nós, mulheres, oscilamos como adolescentes entre doses de estrogênio e progesterona e essa química, tão dentro e tão inacessível, brinca de montanha-russa com nosso corpo e essa brincadeira às vezes não tem graça nenhuma.
O fato é que acordei e me pus a pensar, insone.
Toda vida procurei o conforto das palavras, dos significados, a clareza de uma verdade que reluziria feito diamante e o refrigério das informações. Achei que o jornalismo fosse minha redenção, meu porto seguro, claro que não foi, mas mesmo que tivesse escolhido outra profissão duvido que deixaria de lado essa compulsão por conhecimento, essa busca frenética por certezas.
Talvez seja um traço geneticamente herdado, reação contra a falta de respostas convincentes na infância ou somente característica de temperamento, difícil dizer (com relutância assumo que certas coisas nunca saberemos). O fato é que concluí que amar era responder a verdade e somente a verdade e que proteger era informar. Então passei a metralhar os outros com opiniões não pedidas, respostas prolixas e cansativas, reproduzir discursos e teorias feito um dublê de papagaio. Com o tempo, essa busca se tornou muito mais forte, virou hábito, uma obsessão patente em pilhas de livros e revistas, textos, vídeos, entrevistas e tantos impulsivos opressivos.
Diante do escuro e silêncio daquela noite fria pensei que, sem perceber, construí uma torre de gavetas, um armário imenso onde residem, quietinhas, minhas explicações. Cada conceito mora num compartimento e na hora que alguém me pede ajuda eu corro lá, abro a gaveta e tiro a explicação, alegre como um cão abanando o rabo. Eu exatamente assim: rabo abanando, orelhas em pé e o conceito entre os dentes. Um cão agitado e expectante diante das coisas.
Mas há quase oito anos meu pai morreu.
Tudo foi muito surpreendente. Um dia, ele estava feliz com seu novo sítio planejando um churrasco, no outro, desapareceu do mundo. E eu soube disso depois de deixar meus filhos na creche, indo para o trabalho, informada de que, enquanto eu dormia, ele passara a noite na sala de emergência de um pronto-socorro numa cidade desconhecida até seu coração parar de vez. Fiquei perdida com a notícia, literalmente. Confusa, órfã, abobalhada. Tudo aconteceu numa velocidade impressionante e nada me preparara para o que eu senti naquela hora, para o momento desolador: nem meus estudos sobre tanatologia, nem minhas matérias sobre morte encefálica, nem os livros de Elizabeth Kübler-Ross ou as palestras sobre doação de órgãos. Veja, eu trabalhava em hospital como assessora de imprensa! Era uma pesquisadora sobre a morte, mas nada me trouxe alívio. A sensação que eu tive, naquela manhã radiante de céu azul, era que ele me havia sido roubado. Sequestrado. E o pior era não saber para onde ele foi levado, a quem recorrer, o que fazer para salvá-lo.
Minha ansiedade aumentou-me a curiosidade, que logo virou uma espécie de hipocondria, uma depressão não reconhecida, um luto negado. Comprei mais livros, pesquisei mais autores, compilei mais informações numa teia confusa e insana, e não cheguei a lugar algum com aquela coleção.
Desde então venho tentando levar minha vida, mas uma tristeza e um isolamento me assombram, embora tenha passado a pior fase. Deixei os amigos de lado, desisti de um emprego, do meu trabalho voluntário, me encolhi feito caracol. Passei a ficar em casa, dormir, ler, comprar pela internet. No fundo, nada me encanta. Minha família me alegra pelo amor que sinto, esse amor cuja tradução mora lá na gavetinha ou em várias, dependendo do tipo. O amor materno, por exemplo, é um amor absoluto e visceral, uma entrega, devoção, mas cada filho não é diferente? Quando aquele filho te cansa, algo nele te desafia, o que fazer ao puxar a gavetinha? Como pasteurizar os sentimentos? Entretanto, seguia escalando a torre, acrescentando mais gavetas quanto mais informações encontrava sobre um tema que levava a outro e a outro.
Nesta noite, contudo, tive uma revelação: não havia gavetinha para a morte.
Quando perdi meu pai corri para a torre, língua de fora, olhos esbugalhados, orelhas caídas, e abri uma por uma das gavetas sem encontrar a definição de morte, uma explicação para o que tinha tirado meu pai de mim. Não havia. Nada. Era um completo silêncio, uma ausência de luz, como a noite de insônia. Comecei a escavar, como os cães fazem, à procura de osso. Deve estar por aqui, sim, devo estar perto da explicação, revolvendo a terra. Olhei para a torre e ela me pareceu um cemitério vertical, com suas gavetas de letras estanques.
Mas lá de dentro de mim, muito além da torre de significados que construí, uma luz se acendeu e eu entendi que a morte misteriosa e inexorável era um convite à vida. A morte riu da minha ingenuidade em acreditar nas palavras e, como uma mãe bem delicada, puxou meu queixo para si, me olhou bem nos olhos e disse assim: "Filha, sinta!". E já não era a morte, mas meu pai dizendo "Pare, filha". Sinta, não explique. Sinta, não tente entender. Pare para sentir. Apenas isso.
Hoje tento não cortar meus filhos quando eles chegam da rua com algum comentário, triste ou alegre. Quando eles choram por algo, busco não confortá-los com palavras, mas com um longo abraço ou apenas com o som da nossa respiração, nado com eles nesse mar de sentimentos. Quando meu marido chega e conta algo que me soa como equívoco faço um esforço sobre-humano para não dizer o que eu acho que ele deve fazer, abandonar de vez o tom professoral. Amigos que se abrem, nada de conselhos, apenas a escuta. Descobri que as palavras nos distanciam da dor do outro e da nossa e o silêncio é um bálsamo.
Não há dor pior que a morte. Mas devemos senti-la para viver. Se foi o filósofo Sócrates que disse a frase "Só sei que nada sei" não tenho como saber, mas ela é de uma sabedoria incrível. O que o ser humano sabe de si, do outro ou do mundo? As certezas não existem, cada momento é único, irreversível e em constante fluxo. Mas quando eu abro minha percepção para as sensações, conectando-se à realidade da vida, sinto que vivo de fato e de verdade.
Minha torre está lá, mas a tenho visitado pouco. Compro livros e leio muito, escrevo às vezes, pesquiso sempre, construo gavetas. Ainda acho que meu pai me foi roubado, ainda anseio por resgatá-lo um dia. E durmo pouco, meus ovários não deixam, nem minhas ideias. Mas sabe que depois daquela noite eu me sinto mais leve? O desafio de sentir, mais do que explicar, me reivindica a todo momento e aí eu paro por alguns segundos, fecho os olhos, respiro fundo e me calo para abrir o coração.
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