Um ser bem estranho

Sou jornalista. Mas nunca me senti jornalista. Entretanto, na turbulência dos dezessete anos foi o que desejei para minha vida ao prestar aquele vestibular.
Poderia ter desistido da faculdade depois da aula inaugural, mas preferi ficar. E assim, por mais de vinte anos, dediquei-me a escrever dentro dos moldes dos manuais de redação, obedecendo a fórmulas que não cabiam na vastidão da minha poesia, perseguindo notícias como quem caça borboletas. Perda de tempo? É provável porque hoje, aos quarenta e cinco, poderia estar aí com vários livros publicados, uma profícua produção literária, participando de eventos, feliz da vida, enquanto neste momento me vejo na incômoda situação de ser um ser bem estranho ao iniciar uma nova carreira.
Explico.
Escrevi por mais de duas décadas. Mas escrever páginas de jornais não é como escrever livros. Até assinar meu primeiro contrato com uma editora, não me permiti responder "escritora" para atendentes que perguntavam "profissão?". Soaria como blefe, uma farsa, mesmo estando produzindo ficção havia um ano, após pedir demissão do meu último emprego. "Jornalista" sempre foi tão mais confortável e real, com diploma para certificar, carteira de trabalho, número de MTb, currículo, embora o termo me causasse certa repugnância por aludir aos coleguinhas que se comprazem na ostentação de um glamour imaginado. Porque associar jornalismo a glamour me parece uma piada de mau gosto, basta ler o que Gabriel García Marquez escreveu!  "Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte."
Guardo ainda essa paixão insaciável pela verdade (o orgasmo do furo deixei para trás, junto com nacos embolorados de pizza), que nada tem a ver com jornalismo. Posso exercê-la mais fielmente na literatura. Depois de uma temporada em meio a notícias, você logo descobre como a verdade pode ser relativa diante de interesses políticos e econômicos que pesam sobre as pautas.
Então me via meio velha de guerra (sem ter ido), uma ex-combatente de muletas que metia o pau na nação que serviu, daquelas figuras cansadas e céticas que abandonaram seus sonho e riem da ingenuidade dos idealistas, um riso amargo, quase choro.
Desisti do jornalismo, não havia outro caminho. Desisti para assumir que meu desejo é ser escritora e hoje  me encontro em período de adaptação, como criança na creche, ansiando por um colo conhecido. 
No começo foi estranho pensar em qualquer outra profissão, como se isso implicasse a culpa da deserção. Sentia-me repulsiva nessa espécie de traição, a covardia, o mais abominável dos pecados. Aos poucos, fui cedendo, afrouxando as amarras e me metamorfoseando neste ser ambíguo. 
Começou pela escrita.
Deixei de lado as regras e a fórmula de Kipling, não me serviam. Escondi os manuais. Passei a fazer exercícios criativos, escrever o que viesse à mente como um médium psicografando folhas e folhas colocadas a sua frente. Escrevi microcontos. Livros infantis. Fábulas. Crônicas. Diários. Engatilhei alguns romances, mas parei nas ideias essenciais. Poemas. Até chegar aos contos. Ah, os contos! Foi a palpitação sobrenatural de que fala Marquez! Um tipo mágico de canção.
Juntei algumas dezenas deles num único livro intitulado "Trágicos e Triviais", registrei, empolgada, junto à Biblioteca Nacional, enviei para editoras, aguardo. Estou prestes a publicar meus três primeiros contos em coletâneas da editora Andross e, como alguém que exige comprovação, vício do ofício, poderei em breve responder "escritora" às atendentes. Meu filho mais velho, advogado, considera um contrassenso. Talvez seja. Como tantos outros, enfim.
E eis-me aqui: novata, iniciante, caminhando tímida pelo mundo dos livros como um "foca" tropeça nos degraus da redação. Estranho porque já passei por isso, déjà vu, só que psicologicamente me encontro em outro nível. Olho ao redor e vejo pessoas jovens, na faixa de seus vinte ou trinta anos, e eu, tão perto dos cinquenta, sou assaltada pelo sentimento de inadequação que constrange alunos repetentes, altos demais para a turma. Encontro concurso para jovens escritores, blogs de jovens leitores, selos e tudo o mais para jovem, como se fosse sinônimo de iniciante. Não sou mais jovem, basta encarar minhas mãos. Mas, sendo madura, preciso começar de novo, refazer minha vida, voltar para o fim da fila. Não sou iniciante, embora seja; não sou veterana, embora seja.
Me reinvento ou me descubro? 
Dias desses tropecei, pela rede, num colega de profissão. Quando o conheci, uma universitária de 20 anos apaixonada por Maiakovski (ainda sou), ele flertava com o comunismo. Agora é editor de economia de um grupo importante e posa, grisalho, para fotos clicadas ao acaso fingido, bebericando líquido amarelado em algum encontro importante. Tornou-se o retrato de alguém bem-sucedido, adaptado e integrado ao sistema, tão distante daquele jovem jornalista que registrava os fatos ao dedilhar uma máquina de escrever. No fim da fila, não posso negar uma certa mágoa travestida em dúvida, a pontinha de inveja da carreira em ascensão do editor alfinetando-me a garganta como um punhal, a incompatibilidade nesse novo capítulo da vida me revirar o estômago. Mas, olhando bem, ele me pareceu um tanto incongruente nas imagens sobrepostas, como se não tratassem da mesma pessoa. Comigo se desenvolve um processo inverso.
Ando animada. 
A cada dia me rejuvenesço mais ao abrir meu notebook e criar novas narrativas, tão mais próxima à estudante que amava o poeta russo. Fazer contos é viver diferentes papeis, habitar realidades díspares e universos infinitos que tal arte nos faz crer na eternidade. A vida dos jornais é efêmera; os livros são imortais. Bebo esse líquido vermelho como fonte da juventude, mas não se enganem: é chá de hibisco. Quase posso retirar minha máquina de escrever de seu esquife, revivê-la como a estudante de Jornalismo ávida por registrar a mitológica verdade em amareladas laudas.
Não sei onde isso vai dar, esse dilema kafkiano que beira o surreal. 
Tudo que eu sei, hoje, é que sou esse ser muito estranho. E isso daria um belo conto.       

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